26.10.09

o concerto

sala dos espelhos
A Sala dos Espelhos no Palácio estava cheia, num silêncio murmurado, as pessoas aguardavam o acender das vozes ...
nós aguardávamos nas catacumbas do palácio, outrora uma cozinha ou sala de arrumos, contrastava com a beleza de tudo o resto mas até por isso era misterioso ali estar.
Antes de começar o concerto, o maestro apresentou o Grupo e as peças que iríamos cantar, aviso prévio do palácio “não se encostem à talha dourada”...
Chegara o momento de enfrentar os olhares em nós,
e num ambiente palaciano o meu coração quase se ouvia pela assistência ou pelo menos assim era essa a minha sensação ...
olhos postos no maestro... e ...
as vozes dos contraltos, sopranos, tenores e baixos soltaram-se e deram vida a uma das mais belas salas do Palácio.
Os espelhos não partiram, as pessoas não abandonaram o espaço, cada vez chegavam mais..., houve grandes aplausos, deduzo que correu bem...
no final as vénias de agradecimento, as flores...mais aplausos e vénias...
Adorei o ambiente ... acima de tudo adorei cantar.
Agradecimentos: aos espelhos que se mantiveram firmes e à talha dourada, obviamente! :)
Ao maestro pela forma como acolheu os novos coralistas e incentivou para este concerto (Ele não irá ler isto mas em todo o caso...)
Ao público, amigos e família presentes, aos que me apoiaram...
E a ti N. por teres visto o cartaz a pedir novos coralistas e me teres incentivado a ir às audições ...

E muitos mais concertos irão acontecer ou pelo menos assim espero...

24.10.09

caixa de sonhos


Se cada um de nós pensasse na sua caixinha de sonhos, iria descrevê-la de uma forma única e irrepetível.
Todas as noites essa caixa de veludo cheia de brilhantes prateados e tons azul escuro e rosa... abre-se e leva-nos numa melodia que a nossa mente misteriosamente constrói e desconstrói.
Imagens, sensações, desejos, medos e tensões são acolhidos nesse recanto que enfeitamos ou não, com o que antecipamos ou com o que desejamos de nós....
Tantas vezes sem nexo ou rasgos de realidade, aventuramo-nos numa viagem que nos traz a sensação plena de bem-estar ou de dor, encarnada em imensos campos de flores e sorrisos colados em raios de sol ou no amargo fel que nasce no breu da noite ou nos dias mais sombrios...

“Em todas as pessoas, por mais que não pareça, há uma despensa de sonhos. Alguns que depois de sonhados se foram guardando, mais ao menos amarrotados e por escovar. Outros que lá foram parar embrulhados no papel colorido com que pousaram em nós, de surpresa.” – Eduardo Sá

Sem dúvida, um dos muitos privilégios que podemos sentir...e soltar as coloridas asas e voar num fulgor como se os dias reais não dessem tempo e espaço para nos darmos a tamanho luxo e fantasia.
E perdoem-me mais uma vez evocar Eduardo Sá mas admiro a beleza terna e simples com que escreve sobre tudo,
“...sempre que não podemos dizer, com simplicidade, “Abraça-me e não me perguntes porquê”, há uma parte de nós que se esgueira para a despensa dos sonhos. E por lá fica, num “já não sei se sei sentir”.

“... o grande privilégio dos sonhos não passa por antecipar o futuro mas para deixar que ele aconteça.”

Só me resta apenas desejar ... muitos bons sonhos!

19.10.09

menos toque


A importância do toque é unânime como algo tão vital como respirarmos.
Desde que nascemos que o contacto físico nos reconforta , acalma, aconchega, nos dá prazer e até nos dá a sensação de pertença e de sermos gostados...
No entanto, com a mesma intensidade que necessitamos dele, também há dias que não queremos de todo esse contacto físico e isso deve ser igualmente aceite e respeitado.
Há dias assim...quase poderíamos ter um escudo protector do tamanho do nosso corpo ou até encarnarmos a pele de um verdadeiro ouriço...
Até porque todos temos uma zona de conforto que varia de pessoa para pessoa, ou seja, a distância entre nós e o Outro com que nos sentimos bem, confortáveis, sem a sensação de invasão territorial.
Socialmente há situações quase caricatas de pessoas que numa primeira abordagem tocam muito, é a sua forma genuína de ser mas em certos dias consciente ou inconscientemente o nosso corpo, não agradece.
Por tudo isto, e ouriços ou não... sejamos solidários com o nosso Eu, mantendo a nossa zona de conforto garantida quando precisamos dela. E sejamos ainda, intuitivos e observadores relativamente ao Outro, respeitando essa muito menos falada necessidade de “menos toque”...

18.10.09

sombra da lua

Criei mais um pequeno cantinho dentro deste, apenas para arrumar um pouco mais as coisas...
A sombra da lua... num lado ou noutro vou escrevendo.
O link também está na imagem da lua à direita do écran.

16.10.09

Sobre a Palavra

klimt

Entre a folha branca e o gume do olhar
a boca envelhece

Sobre a palavra
a noite aproxima-se da chama

Assim se morre dizias tu
Assim se morre dizia o vento acariciando-te a cintura

Na porosa fronteira do silêncio
a mão ilumina a terra inacabada

Interminavelmente

Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

15.10.09

de papel...


A página em branco tem um silêncio mistério que faz a alma estender-se nas partículas mais ínfimas do vazio...
coração, lágrimas, sorrisos de papel... e nem a voz ou gestos perdidos poderiam colorir melhor uma qualquer emoção... como este papel vazio pinta as letras de uma canção...

14.10.09




Abro os olhos e adormeço
Sem a mente fraquejar
Saio pela manhã
De passagem, coisa vã
Derrapagem
Que a viagem tem princípio, meio e fim

Enquanto vergo, não parto
Enquanto choro, não seco
Enquanto vivo, não corro
À procura do que é certo

Não me venham buzinar
Vou tão bem na minha mão
Então vou para lá
Ver o que dá
Pé atrás na engrenagem
Altruísta até mais não

Enquanto vergo, não parto
Enquanto choro, não seco
Enquanto vivo, não corro
À procura do que é certo

Presa por um fio
Na vertigem do vazio
Que escorrega entre os dedos
Preso em duas mãos
Que o futuro é mais
O presente coerente na razão
Frases feitas são reféns da pulsação

13.10.09

.


Hoje na aula de canto...

A Hymn to the Virgin
Britten

OF one that is so fair and bright
Velut maris stella,
Brighter than the day is light,
Parens et puella:
I cry to thee, thou see to me,
Lady, pray thy Son for me,
Tam pia,
That I might come to thee
Maria.

Al this world was forlon
Eva peccatrice,
Till our Lord was y-bore
De te genetrice.
With ave it went away
Darkest night and comes the day
Salutis;
The well springeth out of thee,
Virtutis.

Lady, flower of everything,
Rose sine spina,
Thou bear Jesu, heavens king,
Gratia divina:
Of all that bear'st the prize,
Lady, queen of paradise
Electa:
Maid mild, mother es
Effecta.


Podem não acreditar mas é lindo!

12.10.09

...


Despedem-se de nós os dias quentes de sol como uma promessa de que voltarão em breve...
Mais parecem um beijo quente na alma, quase dá vontade de parar tudo e ir para a rua desfrutá-los e deixar o sol tocar a pele, em vez de estar entre quatro paredes a trabalhar.
A contrastar com isto há o “senhor das castanhas” que ao fim do dia insiste em prematuramente vendê-las na Avenida onde moro ( há uma semana que anda naquele processo insistente de venda de castanhas) e mesmo em dias quentes como este, lá está o senhor ao fundo da escadaria do Shopping.
Não tenho nada contra o senhor e muito menos contra as castanhas porque adoro-as mas penso que ele insiste em nos lembrar que o Outono chegou ... podia se conter mais um bocadinho!

11.10.09

Tardes de Domingo...

As tardes de Domingo sempre tiveram uma forte nostalgia e um certo nervosismo que acompanha o final do dia, sempre tive esta sensação desde há muito...
As cores de contentamento com que se veste a 6ª feira à tarde, é pura ilusão porque as horas passam num ápice e os minutos escorrem por entre os dedos.
E mesmo tendo feito planos mentais às vezes absurdos e promessas apesar de estratégicas, totalmente inglórias...fica sempre o sabor de que poderia ter feito mais... e poderia realmente.
Neste momento surgiu inevitavelmente na minha mente, aquela imagem de que outrora ou até ainda hoje, mulheres após uma manhã dedicadíssima aos seus Lares, passariam a tarde entusiasmadas e felizes a bordar tecidos maravilhosos ou a cozinhar deliciosos sabores para desfrutar com a sua família num ambiente calmo e silencioso.
E se por acaso sentem nestas palavras algum tipo de crítica enganam-se porque para mim seria um sonho sentir-me completa e realizada com bordados e sabores. E o quanto eu deliro com o cheiro de bolo acabadinho de fazer pela casa...
Mas porque os dias são muito agitados e cheios de relâmpagos, aproveito este bocadinho de calma para escrever esta conversa inútil...
E já se sente na pele o frenesim de Domingo à tarde e nem um cigarro porque não fumo ou um café que não bebo faz acalmar este animal falante que habita em mim...
Não ter vícios “palpáveis” (se é que me entendem) chega a ser stressante porque não conseguimos canalizar as energias para actos simples ...
Escrever leva tempo, desenhar tempo leva e assim se vai o tempo...e juro a mim própria e aos que me rodeiam que após esta maquiavélica dissertação vou dedicar-me ao Lar.

Sou suspeita por isso não aconselho ninguém a ver mas adorei, claro!
Aqui fica um "cheirinho"...

The movie!
Dance dance dream and dance sing sing believe and dream and ...

YouTube - Fame Music Video#

10.10.09

Plano vertical


" O Plano vertical é outro; é um plano
para usurpar o poder dos deuses;
é a linha da torre de babel,
a escada da girafa.
Ascendente de pássaro a quem roubaram
o verbo avançar;
pássaro que sobe como os elevadores,
puxado por cordas, à Força.
Os deuses não gostam,
no entanto a única profundidade aceitável
é estar próximo do sol, como os poetas."

Gonçalo M. Tavares

7.10.09

Transparência


Ser transparente e ver a transparência do Ser...remete-nos para a clareza com que nos expressamos/mostramos e para aquilo que os outros deixam transparecer de si próprios.
E se é desejável que sejamos assertivos na nossa relação com o Outro, também a transparência tornaria as relações mais genuínas e verdadeiras. E esta clareza com o Outro teria ou não benefícios consoante o que cada um de nós quer deixar ou não, transparecer.
De uma forma ou de outra, quase todos nós já passámos por situações em que gostaríamos de ter sido menos transparentes aos olhos de alguém, como forma de nos protegermos ou até de proteger o Outro.
Há quem estrategicamente consiga refugiar-se no seu mundo e entregue as suas emoções mais recônditas a uma outra dimensão sensorial, não as manifestando para o exterior sob a forma de linguagem verbal e não verbal. E há sem dúvida aqueles que mais facilmente deixam falar a alma através do corpo.
Acredito que parte da magia existente na relação com o Outro é vermos para além do que Ele nos mostra.
O brilho que salta do olhar e não mente, o sorriso escondido, o gesto encoberto, a bruma da emoção, a lágrima que escorre pelas vísceras e contamina os movimentos sem enganar, a fúria que incendeia a face, a gargalhada que cala a lágrima, a voz que vacila, a palavra calada, a alegria que contagia...
Eduardo Sá diz, “...a transparência não é um jeito de ser. Mais parece uma graça que desce, de surpresa, sobre duas pessoas e ao contrário da névoa (que as separa) as liga num mesmo querer.”
Enquanto o lápis desliza sobre o papel a transparência brilha na sombra das palavras...mas também aqui (mundo da blogosfera), temos uma máscara que nos protege, e só alguns têm a coragem de mostrar os olhos que escrevem...
Um dia quem sabe, terei a transparência ou coragem de mostrar as mãos que escrevem e os olhos que vos lêem...
Independentemente disto, incentivo a observarem quem vos rodeia para além das palavras, para além do que parecem querer parecer, talvez descubram “jeitos de ser” nunca antes deslumbrados...

4.10.09

No teu poema

"No teu poema
Existe um verso em branco e sem medida
Um corpo que respira, um céu aberto
Janela debruçada para a vida
No teu poema existe a dor calada lá no fundo
O passo da coragem em casa escura
E, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite
O riso e a voz refeita à luz do dia
A festa da senhora da agonia
E o cansaço
Do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe o grito e o eco da metralha
A dor que sei de cor mas não recito
E os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
Existe um cantochão alentejano
A rua e o pregão de uma varina
E um barco assoprado a todo o pano
Existe um rio
A sina de quem nasce fraco ou forte
O risco, a raiva e a luta de quem cai
Ou que resiste
Que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
Existe a esperança acesa atrás do muro
Existe tudo o mais que ainda escapa
E um verso em branco à espera de futuro
."

José Luis Tinoco

sonhei


sonhei que apesar da dor
pequenos diamantes, pérolas
e safiras cosia na pele
traçava riscos e pinceladas de cor
e com a água da minha alma
aguarelas de mapas infinitos
formavam-se no corpo adornado
sonhei que no movimento do abraço
e dos passos purpurinas
pó de brilhantes se soltavam
e deixavam o meu rasto
no caminhar colhia flores, penas
plumagens de cor que guardava
debruava no corpo
e nos cabelos soltos
fixava flores que no vento
se perdiam ...
agarrava por fim as estrelas
e admirava-as por momentos
nas minhas mãos

2.10.09

Era uma vez...


Recebi este original selo do blog Khaa Olhares, http://somensagenskhaa.blogspot.com/, um blog cheio de poesia no Olhar.

Regras...

responder às seguintes perguntas:

1.1 - O seu blog é o livro da sua vida?
O meu blog tem "pedaços" e contornos da minha vida.

1.2 - Porque deu este nome ao seu blog?
Porque gosto de falar com a lua.

2. Dê este selo a 3 blogs que merecem ser um livro.
Ofereço este selo a todos os que se fazem ouvir através da escrita...

O Que Alguém Disse

"Refugia-te na Arte" diz-me Alguém
"Eleva-te num vôo espiritual,
Esquece o teu amor, ri do teu mal,
Olhando-te a ti própria com desdém.

Só é grande e perfeito o que nos vem
Do que em nós é Divino e imortal!
Cega de luz e tonta de ideal
Busca em ti a Verdade e em mais ninguém!"


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

1.10.09

Cantoria

Desde miúda que cantava lá por casa, especialmente no quintal... fazia da vassoura um microfone de luxo , das janelas dos vizinhos camarotes onde sacrificava as pessoas a me ouvirem e dos sapatos de salto alto da minha mãe, o pormenor de classe para me dar confiança para o espetáculo. Na verdade havia até um fiel ouvinte, ficava na janela não para ouvir a voz mas para ver o meu aparatoso desempenho enquanto entoava “Balão sobe sobe”...é verdade, uma triste figura mas era tão desinibida que ainda hoje não percebo como mudei tanto...gostava de ter ainda um bocadinho daquela descontracção.
A cantoria era tanta que os meus pais decidiram “vamos pô-la num grupo coral” e assim foi.
Adorei claro. A fatiota do grupo era um bocadinho terrível, parecíamos verdadeiros canários de tão amarelo que era o vestido mas a possibilidade de cantar era um sonho tornado realidade e o amarelo era a cor da alegria.
O Natal era a minha época preferida e ainda hoje simplesmente adoro cânticos de Natal.
Portanto, só para dizer que isto de cantar ficou entranhado e continuo a cantar em casa, no carro e por aí...
Há uns dias atrás, à porta de casa aparece um cartaz onde pedia novos coralistas para um Grupo Coral que sempre me chamou a atenção. Liguei para o contacto, fui à audição e passei no teste vocal. Faço parte do naipe dos sopranos (disse o maestro) que é o tom de voz feminino mais agudo e aquele que mais gosto, parecemos verdadeiras sereias a cantar :).
E então há cerca de duas semanas que estou nesta nova aventura e dedicada à cantoria de música sacra e profana.
"A música profana é a música não sacra que se desenvolveu no período medieval. É constituída por canções de amor, sátiras políticas e danças acompanhadas de instrumentos como pandeiro e harpa que eram fáceis de ser transportados pelos cantores que se deslocavam de uma cidade para outra. As palavras eram muito importantes de modo que as pessoas pudessem cantar como diversão. A maior colecção de música profana provém dos poemas que os trovadores, provenientes do sul da França, levavam às cortes europeias."
Não estranhem então se aparecer por aqui algumas peças que ande a cantar...
Um sonho para mim seria frequentar uma escola com aulas de pintura, canto, dança...mas não, amanhã vou simplesmente trabalhar, a ouvir música pelo caminho claro!