26.7.09

Bel far niente

“Bel far niente” que significa - a beleza de não fazer nada.
Esta doce expressão referida por Elizabeth Gilbert em “comer, orar, amar”, quando também fala da sua paixão pela língua italiana como sendo uma língua mágica...
Nem sempre damos o devido valor ao “não fazer nada”, na verdade tenho uma lembrança fugaz de já em criança dar importância a esse desprendimento de nós, esse estar e apenas saborear sem empenho ou cansaço físico um momento.
Mas é com o passar dos anos que cada vez mais acho esta expressão com uma beleza única mas acima de tudo como uma necessidade absoluta.
“Bel far niente”...
Há sempre qualquer coisa para arrumar, tratar, cuidar, ...uma infinidade de situações, pessoas e acontecimentos. E a possibilidade de nem um músculo mexer é rara ou inexistente.
Lembro-me em miúda de estar com a minha avó nas tardes de verão e não perdia aquele momento por nada deste mundo...
Deitava-me numa manta que ela estendia no quintal...sentava-se perto de mim num pequeno banco de madeira enquanto bordava os traços das imagens já decalcadas para o pano e ouvia as novelas que passavam na rádio sempre àquela mesma hora.
E a minha visão alternava entre as folhas das árvores que sobre mim esvoaçavam ao vento e as expressões da minha avó deliciando-se com as vozes da rádio.
Nem ela sabia o quanto aquele momento significava para mim...

24.7.09



Espectáculo com texto adaptação de "Fantasias Eróticas, Segredos das Mulheres Portuguesas" de Isabel Freire, dramaturgia de Célia Ramos, criação de Célia Ramos e Catarina Ascensão, interpretação de Célia Ramos, figurinos de Célia Ramos e Catarina Ascensão, cenário de Célia Ramos e Catarina Ascensão, desenho de luz de Catarina Ascensão e sonoplastia de Catarina Ascensão e Célia Ramos.

23.7.09

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu bruel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!

Florbela Espanca

21.7.09

Beth Gibbons



God knows how I adore life
When the wind turns on the shores lies another day
I cannot ask for more

When the time bell blows my heart
And I have scored a better day
Well nobody made this war of mine

And the moments that I enjoy
A place of love and mystery
I'll be there anytime

Oh mysteries of love
Where war is no more
I'll be there anytime

When the time bell blows my heart
And I have scored a better day
Well nobody made this war of mine

And the moments that I enjoy
A place of love and mystery
I'll be there anytime

Mysteries of love
Where war is no more
I'll be there anytime

20.7.09

Minha lua
Minha tão perdida lua
Lua nua
Fugaz
Intensa
Contida
Sentida
Lua...
De cor alva
No meu peito iluminas
Na solidão do teu céu
Inspiras
Na sombra perfeita
Na dor refeita
Lua
Minha fantasia
Minha doce
Magia...
Meu suave deitar
Meu rebelde acordar

A estrela dos amantes
O rasto de um corpo escaldante
A luz das marés
Das tempestades
E junto a teus pés
Te digo...
Lua minha tão lua minha...



"A Lua sempre atraiu a atenção do homem, e este interesse ficou registrado na poesia, na literatura e na ficção científica.

A missão Apollo 11 pousou na superfície lunar em 20 de Julho de 1969, em um local chamado "Sea of Tranquility" (Mar da Tranquilidade). Neil Armstrong e Edwin Aldrin tornaram-se os primeiros homens a caminhar no solo lunar."


19.7.09

Mudanças da Lua

Queria dar uns reflexos de cor à Lua mas não está a ser fácil...estas novas roupas aindas as estranho e porque a lua não se veste nem se pinta, tenho saudades do fundo negro. Não se admirem que venha a existir mais transformações...
Mudar não é fácil...para algumas pessoas é um estímulo, para outras um desafio, para mim é difícil. Embora depois acabe por abraçar as mudanças com alguma confiança e como algo de que não se pode fugir e com a célebre frase que também ajuda “nada é por acaso”, vou em frente...
Somos animais de vícios, rotinas e hábitos, por vezes são coisas que até nos incomodam e limitam, outras vezes são “rituais” que nos dão segurança, prazer, sensação de plenitude ou simplesmente nos amparam...como se de “Injecções” se tratassem e viciassem o nosso Todo.
Na verdade depois de uma mudança vem sempre a fase da insegurança passada e com o tempo vem se a disfrutar ou não do que resulta disso.
Até um mero fundo negro pode-nos fazer falta...

18.7.09


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Everybody's Talking At Me


Adoro a música e a voz ...

"Everybody's talking at me.
I don't hear a word they're saying,
Only the echoes of my mind.
People stopping staring,
I can't see their faces,
Only the shadows of their eyes.

I'm going where the sun keeps shining
Thru' the pouring rain,
Going where the weather suits my clothes,
Backing off of the North East wind,
Sailing on summer breeze
And skipping over the ocean like a stone."

17.7.09

A Voz que Nos Rasgou por Dentro

De onde vem - a voz que
nos rasgou por dentro, que
trouxe consigo a chuva negra
do outono, que fugiu por
entre névoas e campos
devorados pela erva?

Esteve aqui — aqui dentro
de nós, como se sempre aqui
tivesse estado; e não a
ouvimos, como se não nos
falasse desde sempre,
aqui, dentro de nós.

E agora que a queremos ouvir,
como se a tivéssemos re-
conhecido outrora, onde está? A voz
que dança de noite, no inverno,
sem luz nem eco, enquanto
segura pela mão o fio
obscuro do horizonte.

Diz: "Não chores o que te espera,
nem desças já pela margem
do rio derradeiro. Respira,
numa breve inspiração, o cheiro
da resina, nos bosques, e
o sopro húmido dos versos."

Como se a ouvíssemos.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"


Dama da Noite ... floresce uma vez por ano e só fica aberta por uma noite. Pela manhã ela já está murcha e cai...

15.7.09

Dream on girl

Vida ...

Vida sentida no calor da emoção
nas veias que desaguam num coração.
... no abraço
que abraça o beijo.
... no vento perdido
num céu de abrigo.
Vida sentida na dor
do corpo frágil em perfeito ardor.
Vida sentida no sol que abraça o dia
em tempestade perdida.
... num sorriso roubado
de um céu estrelado.
... nas lágrimas de amargo fel
Com asas de papel.

Vida sentida num corpo que sente...

14.7.09

Pixar

Não que morra de amores por desenhos animados pelo contrário mas achei piada a este...e como hoje não me calo, aqui fica...


Noite
luar
frio

Ruas vazias

Sara fugia entre as ruas vazias onde a noite calou o dia...
O som dos seus passos marcavam o compasso daquela fugaz noite.
Unicamente os candeeiros iluminavam o seu olhar vidrado... Sara soltava o corpo a cada passo que acolhia a noite.
E se a solidão daquelas ruas a assustavam também lhe davam a sensação de “mundo meu”.
Parou no miradouro que avistava o rio calmo que espelhava as luzes e onde se demorou por instantes... até o momento em que uma voz a assustou e outras se seguiram e os vultos começaram a ser demasiados. Com fortes passos, tanto quanto os sapatos altos lhe permitiam correr...fugia incansável.
Quando já o suor se misturava com as lágrimas, parou...sem saber para onde ir.
Encontrava-se perto do rio que agora lhe parecia imenso, deixou-se contagiar pela sua calma e pelo som da água a aflorar a enseada. O olhar perdia-se no horizonte e nenhum momento lhe pareceria tão fugaz e intenso como aquele...

10.7.09

Céu estrelado


O olhar solta-se
Desprendido e em fuga...
E enquanto o corpo
Se prende à terra húmida
Daqueles campos verdes
As estrelas cintilam
Fascinanates
Calmas
Acompanhando o silêncio
Da imensidade
E quanto mais alto
O céu se eleva
Mais o corpo se prende
Se deleita
Se mistura com o solo
Com o cheiro da terra molhada
Com o céu
De onde o olhar ficou
E as mãos se fecham em concha
Guardando o sabor da terra
Enchendo o coração de estrelas
Que traçam as mesmas constelações
Num céu estrelado...


9.7.09

As palavras

São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.Tecidas são de luz
e são a noite.E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

8.7.09



No Lugar que chamo casa
com paredes de luar
cada sonho é um desenho
com vontade de lutar

Cada risco é como um grito
que canto e deixo no papel
cada sombra um poema
que se despe e livre, pássaro cruzando o céu

SER COMO UM DESEJO,
SER HERÓI NUM BEIJO
SOBRE A CIDADE
VIVER NUMA ESTRELA
E SEM DAR POR ELA
GRITAR LIBERDADE

...

7.7.09


Eclipse
Eu até poderia falar do quanto me está a fazer falta os dias de sol isentos de nuvens, ou até da camada de ozono que está saturada, ...
da importância de ter férias e abstrair-mo-nos de tudo o resto.
Poderia falar do quanto estou farta das músicas que ouvia mas que continuo a ouvir..., que estou a ler o livro “comer, orar, amar” de Elizabeth Gilbert.
De muita coisa poderia eu falar mas nada sai em conformidade...ou até do quanto é importante, dar para poder receber...de que também eu gostaria de ser mais congruente, mas nada sai...
Do quanto um dia gostaria de aprender a dançar tango...
e de que este ano desejaria ir à praia mais deserta do planeta e do quanto me foi difícil ir ao jardim este fim de semana e ter caído por duas vezes em menos de um minuto enquanto tentava socorrer alguém que caíra...
das saudades que tenho de trabalhar na Unidade de Saúde em vez de...
poderia falar das viagens que gostaria de fazer, Escócia ou até a um sítio tropical...
ou até das mulheres corajosas que tenho conhecido, dos filmes que já vi e dos que quero ver.
Do quanto gosto das árvores em flor...do cheiro da terra molhada, dos pinheiros bravos, da cera e do petróleo...mas nada consigo expressar em palavras.
Do quanto as vozes de hoje já não são as vozes de ontem...de que adoro conduzir depressa ao som de música alta...do quanto desejo me embrenhar na leitura de um livro mesmo que tudo à minha volta desabe...
Do quanto me apaixonei pela voz de Eva Cassidy.
Do quanto gostaria de ser mais calma e sensata...
do quanto gosto de ver um céu estrelado ...do quanto há lágrimas que se soltam sem aviso prévio assim como há sorrisos que nascem de coisas tão simples...
de que gosto de gritos mudos em versos escondidos e de que isto até poderia ser um grito sem eco numa gruta sombria ...
mas são apenas palavras soltas ao vento recolhidas pela lua mais sombria ...

2.7.09

Não ser

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!
...

Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...

Florbela Espanca