25.6.09


O manto quente cai na mais sossegada tarde...
Em que apenas o som das ramagens é o único trazido pelo vento.
Naquele jardim onde Maria sentada com o corpo desalinhado, caído sobre si próprio, como se quisesse ouvir o coração, forte e mais forte, quanto mais se aproximasse do peito.
Num desalento todas as tardes em passadas largas recorria àquele jardim e ali ficava horas, minutos...
Era sempre o seu momento, o seu reencontro...
Se as lágrimas desarmassem e se as linhas finas do seu rosto falassem...num olhar profundo cinzento, longe no horizonte, longe do presente e perto da saudade.
Tenta alcançar o tempo com o gesto das mãos perdidas, trémulas, soltas no ar...
Na memória daqueles cantos, recantos e encantos.
Ao colher a flor mais perfeita demora-se nos traços das suas mãos que denunciam a sua já frágil idade.
Agora tristes os cabelos, outrora foram brilhantes, cheios de movimento que lhe guarneciam o rosto e o olhar desprendido e ávido de vida.
O corpo cansado pelo tempo, pelas horas, acusam os movimentos lentos da idade e a calma que a vida lhe ensinou a esperar e a desesperar.
Maria sente os dias mais demorados, sem fim.
Relembra-se quando em menina tinha medo da noite e desejava que fosse sempre dia.
Hoje anseia pela noite que sabe que lhe traz a aproximação do outro dia...esperando que a vida lhe leve os dias infinitos. Porque a vida já não lhe trará o rebentar do peito em fulgor, a dança do corpo em tempestivas emoções, o desprendido coração numa corrida acelerada para a melodia mais sentida.
Porque a vida simplesmente já não lhe dirá que na noite há a lua que a escuta, que supostamente escrevia em céu celeste os seus pensamentos e que decalcava os seus passos como uma história de vida que ficaria inscrita nas estrelas que nem os temporais ou ventos mudariam o seu rumo...

2 comentários:

  1. Gostei bastante do texto, eu acredito pelo menos que a minha vida è única e irrepetivel ,suficiente para permanecer eternamente não ?
    Bonito texto !
    *Fizeste bem em apagar o contacto.
    Obrigada!

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  2. Gostei muito do que escreveste! Como a noção do que é a vida muda com o tempo!
    bonito!

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