26.5.09

Sara

O turno da noite acabava ...e enquanto a maioria das pessoas deslocava-se apressadamente para os seus trabalhos, Sara regressava a casa numa manhã melancólica, cinzenta e fria.
Aquela noite no hospital foi mais um turno em que sentiu o coração tremer quando se aproximou de Joana.
Uma menina de 5 anos chegada há dois dias ao serviço de pediatria com o diagnóstico de neuroblastoma.
Joana de cabelo aos caracois densos perfeitos que dançavam sobre a sua cabeça, a cada gesto ou movimento, olhos castanhos redondos e expressivos, sorriso escondido, meiga no falar e com o olhar perguntava, “o que faço aqui?”...
No primeiro dia de Joana no serviço tudo era novidade para ela...Sara aproximou-se, sentou-se perto dela e perguntou:
- Apresentas-me a tua boneca?
- Queres brincar comigo? –perguntou Joana
- Gostava muito. – disse Sara
Aqueles dez minutos de brincadeira foram o suficiente para Joana se sentir ligeiramente mais à vontade.
As situações dificeis seguem-se dia após dia em crescente intensidade para Joana mas as crianças têm uma força interior abismal e surpreendente.
A dor física é para as crianças algo difícil de suportar e Joana tinha muitas dores devido ao tumor que comprimia alguns orgãos, nomeadamente a bexiga, que não a deixava urinar livremente e sem desconforto.
Aliviar a dor e fazê-la sentir-se mais tranquila eram os primeiros objectivos.
Nessa noite Joana verbalizou que sentia medo...
Sara segurou-lhe na mão e disse:
- Joana, estou aqui para te ajudar, eu e os outros enfermeiros, a mãe e o pai também estão aqui contigo...mas fala-me dos teus medos...

Os pais de Joana estavam separados mas nada abalava o conforto e amor que queriam dar à sua filha naquele momento, por isso estavam presentes de corpo e alma destroçados mas presentes sem discórdias ou rancores apenas amando e respeitando a sua filha.
...
E enquanto Sara em casa se livrava das roupas que trazia, tentava esquecer por momentos a noite que teve e um duche demorado deixava sair tudo o que sentia, a revolta, as perguntas, a dor, as lágrimas...
Tantas vezes como esta que Sara se questionava se ser enfermeira, teria sido a opção certa ...não conseguindo ser indiferente a tantos sofrimentos que lhe passavam pelas mãos, carregando em si, as expressões de dor das pessoas que cuidava, o sofrimento, o desalento, as incertezas, a morte.
Poucos dias depois, no turno da manhã, Sara procurava Joana...estava com outras crianças na sala de jogos. A menina de densos caracois era agora uma menina sem cabelo, linda de igual forma...
- Estou igual aos outros meninos, já viste? – disse Joana
Sara fez de um impulso de choro um grande sorriso e disse:
– Pois estás Joana e estás linda como sempre, linda! – disse acariciando-lhe o rosto.

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neblina

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