27.5.09


"Há em todos nós a criança que fomos (ou, se preferirem, que somos), uma vez que os episódios da nossa infância vivem, para sempre, connosco. Alguns abrem avenidas novas no nosso crescimento. Outros atropelam-nos (de surpresa) condicionando e limitando a nossa relação com a vida, com o amor, com os sonhos ou com tudo aquilo que sentimos. Serão pequenas feridas da infância que nunca foram contrabalançadas por aventuras divertidas, por viagens inesquecíveis ou por experiências mágicas (onde, por exemplo, antes de configurarmos uma dúvida, um dos nossos pais terá inventado uma solução). O que não teriam precisado de conquistar tantas crianças (hoje já pais) para terem conseguido cicatrizar descuidos , desamparos, decepções e desinteresses que viveram!"
Eduardo Sá

26.5.09

It's A Man's World

Sara

O turno da noite acabava ...e enquanto a maioria das pessoas deslocava-se apressadamente para os seus trabalhos, Sara regressava a casa numa manhã melancólica, cinzenta e fria.
Aquela noite no hospital foi mais um turno em que sentiu o coração tremer quando se aproximou de Joana.
Uma menina de 5 anos chegada há dois dias ao serviço de pediatria com o diagnóstico de neuroblastoma.
Joana de cabelo aos caracois densos perfeitos que dançavam sobre a sua cabeça, a cada gesto ou movimento, olhos castanhos redondos e expressivos, sorriso escondido, meiga no falar e com o olhar perguntava, “o que faço aqui?”...
No primeiro dia de Joana no serviço tudo era novidade para ela...Sara aproximou-se, sentou-se perto dela e perguntou:
- Apresentas-me a tua boneca?
- Queres brincar comigo? –perguntou Joana
- Gostava muito. – disse Sara
Aqueles dez minutos de brincadeira foram o suficiente para Joana se sentir ligeiramente mais à vontade.
As situações dificeis seguem-se dia após dia em crescente intensidade para Joana mas as crianças têm uma força interior abismal e surpreendente.
A dor física é para as crianças algo difícil de suportar e Joana tinha muitas dores devido ao tumor que comprimia alguns orgãos, nomeadamente a bexiga, que não a deixava urinar livremente e sem desconforto.
Aliviar a dor e fazê-la sentir-se mais tranquila eram os primeiros objectivos.
Nessa noite Joana verbalizou que sentia medo...
Sara segurou-lhe na mão e disse:
- Joana, estou aqui para te ajudar, eu e os outros enfermeiros, a mãe e o pai também estão aqui contigo...mas fala-me dos teus medos...

Os pais de Joana estavam separados mas nada abalava o conforto e amor que queriam dar à sua filha naquele momento, por isso estavam presentes de corpo e alma destroçados mas presentes sem discórdias ou rancores apenas amando e respeitando a sua filha.
...
E enquanto Sara em casa se livrava das roupas que trazia, tentava esquecer por momentos a noite que teve e um duche demorado deixava sair tudo o que sentia, a revolta, as perguntas, a dor, as lágrimas...
Tantas vezes como esta que Sara se questionava se ser enfermeira, teria sido a opção certa ...não conseguindo ser indiferente a tantos sofrimentos que lhe passavam pelas mãos, carregando em si, as expressões de dor das pessoas que cuidava, o sofrimento, o desalento, as incertezas, a morte.
Poucos dias depois, no turno da manhã, Sara procurava Joana...estava com outras crianças na sala de jogos. A menina de densos caracois era agora uma menina sem cabelo, linda de igual forma...
- Estou igual aos outros meninos, já viste? – disse Joana
Sara fez de um impulso de choro um grande sorriso e disse:
– Pois estás Joana e estás linda como sempre, linda! – disse acariciando-lhe o rosto.

25.5.09

Take the leade

Canoa


Na noite calma que cai, lembro a lua quando no mar liso se espelha...rasto branco que ilumina imenso céu escuro que se pôs.
Sinto os dias que correm... as horas e os segundos que escapam por entre os dedos, o tempo que não espera e que apenas pára quando o sol se sente quente na alma que assim se alimenta sedenta enquanto a natureza nos sorri e convida a viver.
Imagino-me em pequena canoa rangente percorrendo rios de vida em que se solta o suspiro dos vales que encontro nas enseadas deste lânguido e lento rio, plátanos verdejantes onde pássaros cantantes seduzem e encantam.
E como se de uma paisagem exótica se tratasse imagino aves coloridas e brancas que calmas paravam para ver a canoa passar entre flores arco-iris e doces perfumes...
Canoa de madeira segue viagem ao sabor dos luares, dos ventos e estrelas cadentes...num olhar desprendido que sorri, que chora...que sente.

18.5.09

Princesa Desalento

Minh'alma é a Princesa Desalento,
Como um Poeta lhe chamou, um dia.
É magoada, e pálida, e sombria,
Como soluços trágicos do vento!

É frágil como o sonho dum momento;
Soturna como preces de agonia,
Vive do riso duma boca fria:
Minh'alma é a Princesa Desalento...

Altas horas da noite ela vagueia...
E ao luar suavíssimo, que anseia,
Põe-se a falar de tanta coisa morta!

O luar ouve minh'alma, ajoelhado,
E vai traçar, fantástico e gelado,
A sombra duma cruz à tua porta...

Florbela Espanca

17.5.09

voz dos anjos


Se ao menos soubesse a linguagem dos anjos
A melodia das harpas
As vozes celestiais que unem a terra ao céu...
Se tantas vezes perdesse o fio que me conduz
Os anjos, esses
Levar-me-iam no caminho da luz
Aos anjos cantaria
Para não desmoronar
A frase certa para me encontrar
Essa pediria ao luar
De joelhos caídos no chão
Em preces cantaria
Cravejando no solo a minha pele
Deixando entre céus a minha voz
A minha vida...
Como um hino que se solta
E se faz ouvir entre montanhas
Um eco ... uma história de vida.
«Se levarem por diante o que está dentro de vós,
O que fizerem salvar-vos-á.
Se não levarem por diante o que está dentro de vós,
O que não fizerem destruir-vos-á.»


Jesus, no Evangelho segundo São Tomás

12.5.09



Adorei este filme, a história de um homem que cria um projecto de amor para cuidar de pessoas doentes, com a dignidade que todo o ser Humano merece. Só por curiosidade hoje é o dia do Enfermeiro.

10.5.09

Baloiço


Baloiço embala
Corpo que sente
Se a melodia calma
Das árvores falasse
Talvez a dor
Do corpo calasse
Se o sol hoje brilhasse
Talvez assim
O corpo em silêncio ficasse
Venham cantos e melodias
Que embalem
O sono perdido
Que ao corpo
Tira a força e só pede
Recantos onde
Morreria o cansaço
Apagaria em silêncio
A dor
Em suspiro se escondia
Ficaria até o corpo sarar
E afinado voltar a acordar...


Adoro Edith Piaf mas não resisti a esta versão de "La vie en rose" com Louis Armstrong (amo saxofone)

9.5.09

Mutilação Genital Feminina


O que falo hoje não é de forma alguma um tema agradável e tenho vindo a adiá-lo por essa mesma razão mas um dia tinha de ser...
No encontro anual de enfermeiros de cuidados de saúde primários foi discutido entre outros temas, um que me ficou, talvez pela brutalidade inerente ao facto...falo da mutilação genital feminina. De facto, não consigo compreender e tão pouco aceitar que o Homem no seu íntimo tenha isto como um aceitável e natural ritual.
Ritual é definido como um “conjunto de gestos, palavras e formalidades, várias vezes atribuídas de um valor simbólico, cuja performance das quais é usualmente prescrita por uma religião ou pelas tradições da comunidade.”
Enquanto pesquisava mais sobre isto, encontrei um texto que quanto a mim espelha bem a realidade deste acto:
“Em 28 países africanos, nalguns países árabes, no Iraque, Indonésia e Malásia é praticada a circuncisão da mulher. Esta consiste na mutilação genital, na amputação do clítoris e dos lábios vaginais às meninas, geralmente a partir dos cinco anos. (...)
Cientistas avaliam em cerca de 10 a 25% as meninas que morrem em consequência desta operação sem higiene que é efectuada com uma navalha ou caco. Os peritos avaliam em 130 milhões o número de mulheres mutiladas. Assim se elimina o prazer sexual das mulheres. É o mesmo que cortar a glande, o pénis ao homem. É uma tortura e um abuso sexual, a repressão da mulher e da sua sexualidade. Os homens ao roubarem o prazer sexual à mulher reduzem-na à função reprodutora.(...)
Apesar das Nações Unidas terem exigido tolerância zero no que respeita a esta prática, continuam a ser vítimas deste costume três milhões de meninas por ano.
Porquê o corte do clítoris? Porque é tradição e os homens o querem. Homens não aceitam casar com uma mulher que ainda tenha o clítoris. Consideram impura quem tenha o clítoris.
Já em 1994 a ONU queria acabar com esta praga em dez anos. Mas nada, a tradição abominável continua na mesma. Umas dão-se em público outras em segredo.
As meninas ou donzelas que não morrem precisam de meses até a ferida cicatrizar. Uma agravante do problema são as dores que acompanham a mulher durante toda a vida e a cicatriz rebenta repetidamente. (...)
Estas práticas constituem um testemunho de pobreza e de indiferença para os países ocidentais. Humanismo compromete. É totalmente incompreensível que estados civilizados onde os direitos humanos são tão apregoados como na Europa e onde há até um certo respeito por animais, se feche os olhos a tal barbaridade e injustiça para com as mulheres. Só resta às mulheres, solidarizem-se já que os homens se escondem por detrás do respeito dos valores culturais. Respeito não, cobardia!”
António Justo
Alemanha

Desculpem-me o alongar deste post mas de facto não consegui ficar indiferente...
Questiono-me:
Será esta uma forma de dar resposta à insegurança masculina?
Será possível permitir-se a prática de um ritual tão descabido e violento?
Um ritual que deixa marcas para toda a vida no corpo e na alma de alguém ...
Para terminar deixo algumas imagens alusivas ao tema.

6.5.09

Gotan Project

Noite




Pela janela fechada
O breu da noite caiu
Sobre a rua deixou ficar
O rasto do dia
Que ainda se sente pulsante
Nos corpos cansados
Nas almas perdidas.
Da janela
O vento da noite
Violento esbarra
Nas folhas das árvores
Que tranquilas agora se agitam
Na incerteza dos dias
No incerto amanhã...

O paladar



Já aqui falei dos cinco sentidos, do olfacto, do toque ... e hoje ocorre-me falar do paladar. Não que vá dizer algo de novo ou poético, apenas salientar que há fases na vida de uma pessoa que as papilas gustativas tomam conta de nós :)...não sei se isto já vos aconteceu...
Para além de ser quase um mistério a forma como os sabores nos fazem sentir um bem estar que ultrapassa o meramente físico e nos questionamos os efeitos que estes têm na alma... e isto porque somos um Todo e não vivemos dissociados do que corpo e alma sentem.
O paladar é como todos os sentidos de extrema importância.
“Mesmo com os olhos vendados e o nariz tapado, somos capazes de identificar um alimento que é colocado dentro de nossa boca. Esse sentido é o paladar. Partículas se desprendem do alimento e se dissolvem na nossa boca, onde a informação é transformada para ser conduzida até o cérebro, que vai decodificá-la. Os seres humanos distinguem as sensações de doce, salgado, azedo e amargo através das papilas gustativas, situadas nas diferentes regiões da língua.”
E tudo isto, tem muito de belo como de frustrante porque nem sempre o que nos sabe bem, nos fará bem. Ou então enganamo-nos para descansar a nossa consciência e dizemos “o corpo está a pedir um docinho”, e a partir desta frase tudo se desenrola na mais perfeita inocência de que estamos a fazer tudo pelo bem, e assim desagua no corpo, que dispensaria tais estragos, uma infinidade de hidratos de carbono e gorduras que levarão meses a serem eliminados.
Estou na fase de seguir a teoria de “o corpo precisa...” e então deparo-me com a loucura dos sabores, sim porque nesta inconstância de precisar do doce e do salgado, do ácido mas nao do amargo, caminho também para a inconstância do peso.
Tento ver o lado positivo da situação... primeiro - tudo isto é sinal de que ainda tenho o sentido do paladar bem apurado; segundo – é sinal que para descansar a minha consciência, digo que oiço o meu corpo; terceiro – ainda sei apreciar as coisas boas da vida, tais como, os sabores.
A verdade é que admiro quem seja indiferente a estes chamamentos... e indiferente a sabores, cores e texturas, comendo apenas para sobreviver.
Admiro seriamente...cada vez mais.

2.5.09

Aquarela

Como está um dia de sol que faz lembrar praia, sorrisos de criança e música sempre!
Lembrei-me de partilhar convosco algo que me mostraram e que achei lindo...



Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cair num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva norte e sul

Vou com ela viajando o Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco à vela branco navegando
é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
E se a gente quiser....... Ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
Com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida
De uma América a outra eu consigo passar num segundo
giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida
e depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia em fim
Descolorirá....

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo ... (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é facil fazer um castelo ... (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.(e descolorirá)

Composição: Toquinho / Vinicius de Moraes / G.Morra / M.Fabrizi

1.5.09

O meu eterno 1º de Maio...

De madrugada os choros habituais fizeram-me acordar como se de um despertador torturante e assíduo se tratasse e o cansaço cada vez mais toma conta de mim...mas dizia que ao acordar de madrugada, tive um rasgo de memória sem pedir, sem querer lembrar apenas surgiu diante dos meus pensamentos e sentidos. Reportei-me há muitos anos atrás, na minha modesta casa de infância, repleta de flores e mais flores, cantos e sonhos meus ...o meu Lugar.
Lembrava-me dos cheiros e da sensação, de sentir na casa a envolvência de algo especial, não por ser um mero feriado mas por ser o meu feriado, o dia em que fazia anos.
E viajei até o ser criança e engraçado que muito do que me ficou, foi aquela casa...talvez porque as casas são o nosso mundo, um porto de abrigo, as nossas coisas, o nosso jeito, os nossos cheiros e sabores.
E tinha uma sensação inexplicável de bem-estar quando a minha mãe arrumava a casa e encerava o chão, o cheiro da cera ainda hoje me faz desfolhar emoções guardadas. É tão bom... aquela sensação de equilibrio exterior equilibrava-me interiormente, trazia-me paz.
Das formas e tachos desprendia-se o cheiro de bolos e doces, acolhia-me tanto a alma...
O tradicional piquenique nas serras verdejantes da ilha não faltava.
A família, as vozes, a confusão...a presença da minha avó, aquela “fortaleza” de mulher que inexplicavelmente tanto me estruturava, amparava no seu jeito de ser, só me apercebi disso anos mais tarde quando a perdi.
As prendas que recebia timidamente e arranjava-lhes a cada uma, um sentido, um cantinho, um carinho...
E ser criança é fazer de poucas coisas tantas que nos enchem a alma.
E ser mulher e fazer anos hoje é olhar para trás com carinho e saudade, é sentir as lágrimas soltarem-se por motivo algum ou por tantos, é em silêncio buscar recortes do passado que me trazem conforto e paz.
É olhar para um coração e corpo de mulher que teima em não calar a voz interior que extravasa por dias, que se contém noutros mas que continua dia após dia na luta diária que é VIVER.