6.9.16

Quando a lua cheia se esconde atrás de uma porta...


memórias...

"A memória organiza-se por caminhos.
Conhecemos as veredas do cérebro que temos de percorrer e nos conduzem às gavetas onde armazenamos imagens, odores, palavras, nomes, emoções, a inocência, pedacinhos do nosso eu e que sempre reabrimos para darmos valor ao passado, ou vida a pessoas que nos ensinaram a percorrer esses caminhos como borboleta a bailar em contraluz..."

Rui Vieira, Quase pescador

Excerto de texto retirado do Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2016, n.1197, 8

"Quase pescador", Rui Vieira

5.8.15

The National - Vanderlyle Crybaby Geeks


"Voar baixo para não esquecer o chão. Voar alto e selvagemente para soltar as minhas grandes asas. Até agora parece-me que eu não voei grande."

Clarice Lispector, Um sopro de vida

31.7.15

Cifra

São eternamente 4h da manhã desde que comecei a olhar para o relógio ou porque antecipei ou parei algures num compasso de espera... a lua a conversar comigo. 
Um livro de Antonio Tabucchi por ler, arranquei-o de uma prateleira há uma semana atrás, num ímpeto de me perder por novos tempos e lugares. Entretanto, a vida não me deixa concentrar, a cada linha que leio surgem imagens que até poderiam ser escritas mas eventualmente em cifra de outra maneira seriam igualmente complexas e indefinidas para quem lesse. 
As insónias parecem parar o tempo num silêncio pesado que atravessa as paredes da casa. Não me inquieta apenas vou no embalo do que a vida me vai respondendo nestas conversas lunares. 



"Um Diário não é isto. Diário é o daquele inglês que, para que ninguém o lesse, até uma cifra inventou. O que eu diria aqui se soubesse escrever em cifra!" 
Diário, Miguel Torga

2.7.15

os armários da noite - Alice Vieira



o perigo de acumular silêncios em 
corredores vazios ou 
qualquer outro vício que a 
vida nos traz

é que depois as palavras 
morrem à toa 
sem flores  sem cânticos  sem
missa do sétimo dia 

e ninguém sabe para que serviram 
se mataram quem não deviam ou
se ficaram entre 
os intervalos do sono fazendo-nos 
tropeçar nelas como em 
chinelos velhos roupa da véspera 
peças de um puzzle que nunca
tivemos tempo de acabar

por vezes surge-nos mesmo a tentação de 
as tapar com os lençois brancos das arcas
onde as avós nos organizavam o futuro
e que nunca usávamos porque
eram de linho e o linho 
dava muito trabalho a engomar
 
mais rapidamente entendíamos que
também as palavras davam muito trabalho a desdobrar
na nossa língua e
embora uma ou outra ainda tentasse brilhar
acabavam sempre por encontrar o caminho de saída
onde o rasto dos crimes perfeitos as esperava

sobre elas se abatem 
os pesadelos das manhãs de domingo e 
ninguém se lembra de lhes arranjar 
significados para o que deixaram para trás
neste estranho país onde continuamente as esperamos 
no cais das mercadorias fora de prazo

depois tudo acaba 
ninguém lhes coloca a pedra 
com dia de nascimento e morte 
ninguém procura herdeiros  ou calcinados despojos

- cavalos de guerra abandonados
na terra de ninguém

Os Armários da Noite, Alice Vieira