12.2.17

Lantejoulas


prometi um acordar com a memória das estrelas
na sombra do lençol e na dobra da noite
a esperança de um corpo leve de cansaço
o silêncio rarefeito nas imagens
de passos e sabrinas
o disco de vinil sorrisos leves como tule
e as memórias de infãncia
fitas de lantejoulas para recordar

pensei pousar as mãos sobre a janela
e romper o horizonte
até às árvores da avenida
prometi-me ao dia
porque ao sol as promessas têm mais brilho
e o que fica no papel são rasgos de alegria
como o som de um riacho solto
e desenfreado entre pedras seculares
que escrevem uma história
a minha.

Andy, 2010

6.2.17

neblina

o rasto de fumo apagava-se na porta entreaberta e ficava o silêncio da noite e uma ou outra palavra por dizer. O cheiro do cigarro apagado e nem uma leva de ar... na linha fina dos olhos a sombra que se estendia até às paredes frias, recantos húmidos de tempestades ousavam ensurdecer de silêncio quem passasse... e nem o vento descolava os lábios, e nem estes saberiam dizer.

Andy, 2011

5.2.17

.

Por ter de relance se visto de corpo inteiro ao espelho, pensou que a proteção também seria não ser mais um corpo único: ser um único corpo dava-lhe, como agora, a impressão de que fora cortada de si própria. Ter um corpo único circundado pelo isolamento tornado tão delimitado esse corpo, sentiu ela, que então se amedrontava de ser uma só, olhou-se avidamente de perto no espelho e se disse deslumbrada: como sou misteriosa, sou tão delicada e forte, e a curva dos lábios manteve a inocência.

Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres (excerto)


    Desenho por Andy 
    material - carvão vegetal

11.10.16

"Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança."

Ernest Hemingway